A vida com filhos é pior
Por favor, não me cancelem, eu tenho uma filha pra criar.
Qualquer argumentação contrária, na minha opinião, seria ingênua, intelectualmente desonesta ou uma feliz exceção. A vida com filhos é objetivamente pior – independentemente de quais fatores levemos em consideração, ela é pior.
Faz-se conta se o melhor emprego dos 30 minutos seguintes é transando ou dormindo (geralmente dorme-se), lê-se menos, come-se comida fria, produz-se menos, cada viagem se torna uma operação bélica, esfacela-se o livre ir e vir, hoje minha filha de 2 anos se jogou no chão gritando porque eu não a deixei subir a escada carregando um galho pontudo de 1 metro.
Se você está ponderando se embarca nessa ou não, e seu critério chave é o “minha vida será melhor?”, eu, travestido de bastião da sinceridade, estou aqui para te salvar. A água dessa piscina, na maioria dos casos, é geladíssima. Não é que “nossa, é difícil, como é difícil”. Sim, de fato, é difícil, mas meu ponto aqui é outro: além de difícil, é pior. Mesmo com minha condição muitíssimo privilegiada – bastante dinheiro e uma parceira maravilhosa –, a vida fica pior.
Um grande amigo cuja paternidade é contemporânea à minha diz que se nos metermos a fazer listinha de prós e contras, ninguém mais procria – e eu concordo.
Porém, meus caros, quando me perguntam se eu teria filho de novo, sabendo o pouco que eu sei e tendo vivido o que eu já vivi na minha tenra paternidade, eu respondo que sim. Um sim taxativo, firme, categórico. E, veja, não é uma resposta hipócrita, de quem tem medo de assumir o que sente, de quem foge de opinião impopular ou de quem, sabendo que nessa estrada não há retorno, acaba por beijar o inevitável na boca porque as coisas são como são. Não. Eu realmente optaria, de novo e de novo, por ter.
A verdade é que eu me julgo uma pessoa indiscutivelmente mais feliz após o nascimento da Ana.
Escutei algo parecido de muitos pais durante os vários anos em que nos esgueiramos entre os os dois caminhos. Eu realmente não entendia. Hoje entendo.
De maneira nenhuma quero inferir que as pessoas que têm filhos são mais felizes – independentemente de qual significado a expressão “ser feliz” tenha por aí. Me refiro única e exclusivamente a minha experiência individual – a sensação de poder ser cancelado pela turma que romantiza a parentalidade e pela turma childfree, por conta do mesmíssimo texto, é muito curiosa.
Retomando, eu não entendia, hoje entendo, mas isso não quer dizer que eu consiga explicar, nem tampouco que eu tenha qualquer tipo de resposta que vá apaziguar a angústia de alguém. Perdão. Os próximos parágrafos serão, portanto, trechos confusos das conversas que tenho com alguma frequência, em especial nos foros mais íntimos, onde me permito colocar pra fora, com alguma ênfase, que, sim, minha vida, hoje, embora (muito) pior, é bem mais feliz.
Desconfio que essa percepção de felicidade tenha relação com o conceito de potência. Sinto que experimento a vida com mais potência desde que a Ana nasceu e, talvez, de alguma forma, eu associe uma vida mais potente a uma vida mais feliz. A existência passou a se apresentar mais interessante desde que me tornei pai. Para além de desfrutar das sensações confortáveis, para além de me perder gostosamente em todo tipo de hedonismo, existe algo difícil de nomear que eu definitivamente só experimentei nessa relação.
Um exemplo bobo: ensino coisas há décadas (meu primeiro emprego foi como professor de informática, aos 15). Me nutro com o caminhar alheio, em inúmeros dias eu basicamente utilizo o avanço dos outros como combustível pra tocar minha vida. E mesmo assim, mesmo familiarizado com a sensação deliciosa de facilitar a jornada de alguém, fico com os olhos marejados lembrando da Ana falando “papai, eu consegui ir no mar, eu não chorei, eu não chorei!”, depois de muito tempo digerindo o fato de que, há uns meses, ela entrou em pânico porque achou o mar barulhento demais.
Há pouco mais de um ano passei uma madrugada terrível após abrir o hemograma da Ana e, tal qual o imbecil que às vezes sou, investigar a alteração grande em um dos indicadores relacionados ao fígado. Foram 4 ou 5 horas de desespero – no fim, não era nada. Obviamente detestei ter passado por isso, mas, em algum lugar esquisito e confuso, por masoquismo ou alívio, me fez bem sentir tanto, tanto, tanto por alguém que não sou eu.
Esse “tanto, tanto, tanto por alguém que não sou eu” me leva ao meu próximo ponto: ter filhos é, de certa forma, tirar férias de si.
Do mesmo modo que associo potência e felicidade, tendo a vincular uma vida menos autocentrada a uma vida mais feliz. Creio que mesmo os seres mais distantes da iluminação poderiam experimentar pipetas de altruísmo nas suas diversas relações, mas, ao menos por aqui, a intensidade com que consegui abdicar (com alegria, veja bem, com alegria) das coisas que tangenciavam meu próprio umbigo foi ridiculamente maior.
É, mas aí a vida ficou pior, né, meu anjo, você tem muito menos tempo pra si, olha a situação que sua coluna ficou, cê ficou cheio de olheira, alguém poderia dizer. E eu concordaria. Repetindo, a vida ficou pior. Mas, e talvez isso aqui soe utópico ou indigesto para alguns, eu tenho a lembrança claríssima, vívida, brilhante, de estar sentado no sofá da sala, em um dia em que eu havia tentado cortar as unhas dos meus pés, sem sucesso, esperando meu quadrado lombar parar de latejar para que eu enfim pudesse calçar sapatos, enquanto observava minha filha montar seus bloquinhos de Lego sozinha, pela primeira vez. Fiquei felicíssimo. Recebi como um presente o fato de me perceber capaz de experimentar, por alguém, um contentamento profundo, mesmo me sentindo muito triste.
Uma amiga querida me perguntou qual a sensação eu espero que as pessoas tenham ao ler esse texto. Ela sugeriu que eu colocasse minha resposta por aqui e eu achei uma boa ideia.
Eventualmente uma ou outra editora me convida para publicar um livro com os pequenos textos sobre a paternidade que solto por aí. Supondo que um dia eu aceite, me pareceu comicamente irônico que um exemplar chegue nas mãos da minha filha, já alfabetizada, e que ela corra seus lindos olhos sobre o índice e se depare com um texto cujo título é “A vida com filhos é pior”.
Nesse caso, filha, eu gostaria de reiterar, mais uma vez, que minha vida é muito mais feliz porque você existe e que, sim, você pode mandar o boleto da sua terapia que o papai paga. Te amo.
Turma querida, recados rápidos
Aos que entraram recentemente na lista de espera→ do Dinheiro Sem Medo, logo chego aí!
Aos que entraram recentemente na lista de espera→ do Pequeno Tablado, logo eu e a Vivi chegamos por aí!
Beijo grande e seguimos.






Não tenho filhos, mas fui ter uma irmã quando eu tinha 17. Por n motivos achei uma loucura meu pai querer ter outra filha tão mais velho… Com um amigo meu aconteceu o mesmo. Ele foi pra faculdade, o irmao ia também dali 2 anos e os pais fizeram uma irmãzinha. E a gente se pergunta: mas pq?
Até que um dia, passei um dia com a minha irmã depois de meses sem ficar do lado dela. A gente não tava fazendo nada demais, só caminhando e ela querendo recolher umas pedrinhas. Aí eu fiquei meio longe, olhando ela. E ela voltou e se aproximou e me entregou umas pedrinhas. Se afastou um pouco…
Falando assim é um grande NADA. Mas foi olhando pra ela esse dia que eu entendi.
Depois comentei com meu amigo e a gente concordou de novo. A criança que a gente vê crescer não faz nada, mas dentro da gente faz tudo, só de olhar.
amei o texto (e ler a palavra informática de novo). sinto que a vida está muito mais inconveniente, mas as emoções têm mais pixels ahaha