Bolinho
Minha mala de viagem foi decorada com adesivos coloridos. Uns 20 ou 25, caprichosamente colados por minha filha, em uma noite de tédio cansado em que eu já não conseguiria esboçar oposição para nada. Papai, posso brincar de enfiar esse palitinho de metal na tomada? Pode, pequeninha, pode, vai tranquila.
Me pergunto se os adesivos fazem parte de um traço inato de dominação, uma espécie de plano biológico composto por múltiplas iniciativas e adotado pelos pequenos seres preocupados com a continuidade da oferta irrestrita de asseio, comida e amor. A quem interessar possa, lhes digo que funciona.
Muito se fala sobre as mudanças logísticas provocadas pela chegada de um filho, sobre o palpável, o notório, o tempo que estava ali – eu juro que estava – e agora não está mais, sobre o dinheiro que antes comprava vinho e viagem e hoje compra, sei lá, roupinha fofa que depois de um mês fica pequena – e diária de babá, muita diária de babá.
Tudo isso me foi dito.
Pouquíssimo se falou, porém, sobre o sequestro consentido e amoroso do meu espaço mental. Ontem, enquanto conduzia um encontro com um grupo de empreendedores sobre modelagem de negócios, me peguei pensando em um bolinho.
Qual bolinho, alguns de vocês se perguntarão, e eu responderei que é o bolinho redondo e fofinho que foi rolando, rolando, pela estrada afora, cantando, cantando, e vocês não entenderão nada e eu explicarei que o bolinho é o personagem central de uma música deliciosa que minha mãe apresentou para minha filha, e pela qual ela está completamente obcecada.
Note bem, quem está obcecada é a minha filha, mas quem pensou no bolinho redondo e fofinho que foi rolando, rolando no meio de uma reunião com 40 pessoas fui eu. E achei tudo isso curioso porque não é como se minha rotina parental fosse uma desgraceira e, por consequência, eu me visse atravessado pelo universo que criamos juntos, minha filha e eu. Eu tenho tempo. Conduzo um tanto de empresa, treino umas oito vezes por semana, leio quase uma hora por dia, durmo a noite inteira, enfim, vivo a vida que sempre sonhei, eu estou bebendo privilégios de canudinho, mas ainda assim, lá se foi o bolinho redondo e fofinho, rolando, rolando.
Achei bonito e procedente o comentário da escritora mexicana Jazmina Barrera. Em Linha Negra (baita livro), ela afirma que, aos que cuidam, os filhos acontecem em todos os tempos verbais. Ela tem razão.
Que criamos filhos para o mundo e que devemos seguir nutrindo apreço por nossos espaços individuais, todos concordamos. Que, para nosso bem e para o bens dos nossos filhos, devemos seguir exercendo nossos papeis, devemos manter vivas nossas identidades, todos concordamos.
Mas ela tem razão.
Tudo o que tenho do meu passado são as lembranças imprecisas, sustentadas parcamente pelos meus braços de hoje, que estão irremediavelmente sustentando Ana. Só consigo acariciar o que passou com as minhas mãos de hoje, que estão constantemente acariciando Ana. Posso mexer na minha agenda do jeito que for. Abrir cinco empresas, fechar duas, parar de praticar esportes, virar um cinéfilo, ter uma agenda apinhada de compromissos paternos ou entupir meus dias com trabalho. Literal ou metaforicamente, minhas mãos estão lá.
Os próximos dias, que construo hoje, também são indiscutivelmente atravessados por minha relação com ela. As pessoas queridas, em uma tentativa ingrata de fazer com que eu cuidasse da minha coluna, não diziam “vamo, se você não cuidar disso agora, logo você não vai conseguir nem limpar sua própria bunda”. Seria uma estratégia ruim. Elas diziam “vamo, você precisa cuidar disso agora pra conseguir pegar sua filha no colo”.
Posso remastigar as migalhas confusas do que passou e posso rascunhar o por vir. É claro que posso. Mas não consigo mais fazê-lo sozinho. Desconfio que, em alguma medida, ter um filho é perder o direito de existir só e, perturbadoramente, se perceber deliciosamente preenchido e feliz com isso.
Lá se foi o bolinho, redondo e fofinho, rolando, rolando.
Pessoas queridas, a partir de hoje, newsletter toda segunda, quarta e sexta. Conto mais sobre os planos por aqui na próxima. E sobre o bolinho, cliquem aqui→
Beijo grande e seguimos.




pra quem também ficou curioso pra ouvir a música:
https://www.youtube.com/shorts/vEptS5kRDi0
recomendo todo o canal do Hélio Ziskind, ele é o cara! Pra quem cresceu nos anos 1990 como eu, é uma nostalgia gostosa, já que quase todas as músicas da TV Cultura da época são dele (Castelo Rá-tim-bum, Cocoricó etc)
https://www.youtube.com/channel/UCOTrtO54roYEm9C8Tgxnjdg
Troque o bolinho por banana, a música preferida de Lara, que com certeza vai desbancar Maria Rita na minha retrospectiva 2026 do Spotify. A música toca em looping, seja na caixinha da JBL, ou na minha cabeça quando a mesma está desligada. E tenho que concordar com você em nunca mais se perceber só, pois internamente, independente do que acontece no mundo, tem sempre muito espaço ocupado por esse amor chamado filha.